Rita Sá (Poesias I)


  A Ave   Vísceras   A Barca
  Interruptor   Grito   Sonho
  Olhos   Sanguíneo   Porto de Abrigo
  Falha Técnica   Lago dos Cisnes   Faca de 100 Gumes
  Areal   As Cores da Saudade   Barqueiro
  Veia   Castigo   Aquarela
  Valsa Lenta   Restos   A Morte do Sorriso


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  Rita Sá




Visitantes.








 



A AVE

A ave vermelha
De asas enormes
Piou três vezes
Enquanto rodava.

Rodava e voava
Em volta de mim.

Cansada,
Posou-me no peito
E com o bico
Curvo e longo
Desfez-me o sonho
Arrancou-me o amor
Levou-me o coração.

A piar
A ave vermelha
Voou para donde veio
Cruzou céus de infinito
Mundos de tempo
E levava nas asas
Enquanto piava
Toda a minha vida
Num só grito.

A ave era eu.

Autora: Rita Sá, 27/08/1999

[Revisto por Luiz de Aquino]

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VÍSCERAS

Vísceras
Em Sangue
E são carne viva
De amor
De paixão
Ou das duas coisas
Ou de coisa nenhuma.

Depois o mar
Quem chega docemente
E se deita sobre a areia
Assim num beijo longo
Dançando dentro dela
E entrando
Deixando-a molhada
E ela escorrega
Nos seus braços de água
Fundindo-se
De amor
E sexo
Com ele.

E assim
Viscerais e completos
Um no outro
Mar e terra
Cheios de amor
Ou de paixão
Ou de coisa nenhuma.

Como tu e eu.
Ou como toda a gente.
Ou como gente nenhuma.

Autora: Rita Sá, 25/09/1999


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A BARCA

o deserto
seco
é o oceano todo
que abarca
a barca
e dentro
leva-me a vida
navegando
pelos mares
e rios
e rio-
-me
no limiar
entre loucura
pura
e morte
lenta.

o vazio
na barca
flutua
sobre o mar
o silêncio
navega

e
atracada
num porto
sem palavra
sem som

muda
e
sem coisa
nenhuma
contigo

à beira
dum precipício.

a minha barca
que te abarca
todo
navega perdida
pelos oceanos fora
sem nunca sair
sempre presa
ao mesmo porto.

o deserto
tu
e o meu amor
por ti.

Autora: Rita Sá, 28/10/1999


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INTERRUPTOR

Primeiro saiste
Não fechaste a porta
Atrás de ti
Apagaste a luz
Deixaste o medo
Acomodar-se
Fazer cama
Deitar-se comigo
O pavor de sair
Pela porta
Que deixaste
Entreaberta
Para voltares
E tornares a sair
Sempre que querias.

Depois voltaste
Abriste a porta toda
Largaste o meu medo
Num canto escuro
Do quarto
Acendeste a luz
O vazio que ficou
Desfez-se do nó
Da agonia
Em que se tinha
Transformado.

Fez-se um lago
Cheio de tudo
E de luz
E a porta
Que ficou entreaberta
Voltaste a encostá-la
No escuro
Apagando a luz
Foste saindo novamente.

E
Novamente
Fiquei no vazio
E o medo
Deitou-se comigo
Outra vez.

Autora: Rita Sá, 01/11/1999


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GRITO

Há um grito
Preso
Mudo
Feito novelo
Que dói
A garganta
Canta
Alma
O deserto
Eco
Fora
Mar imenso

O grito
Corre
Muito
Tropeça
No vazio
Da pressa
E
Ao levantar-se
O céu
Limpo

Espanta-se
Vê-se reflectido
Num espelho
Branco
De oco
Transparente

O grito
Era uma lágrima
Feita mar
Feita terra
Desagua
Neste oceano
Feito tu
E que és tu
Que transbordas
De dentro
De mim
De todas as coisas
E de nada.

O grito
Eu
E este silêncio
Sanguíneo.

Autora: Rita Sá, 01/11/1999


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SONHO

Quero
O sonho
Bonito
Áureo
Sonhado
E simples.

Querido,
Quero-te
Sorrindo
Como em sonhos
Dói-
-me
De sono
A anestesia.

Breve
Acordar
O frio
Janela aberta
Vejo-te
Morte
Que bailas
No meu rio.

Autora: Rita Sá, 01/11/1999


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OLHOS

Que viesses
De mansinho
Chegasses
E os teus olhos
Nos meus.

Que sorrisses
Com carinho
Olhavas-me
E os teus olhos
Perdidos
Em beijos
Poisavam
Nos meus.

Autora: Rita Sá, 01/11/1999

[Revisto por Luiz de Aquino]

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SANGUÍNEO



a força
do mar contra a barra
rasga-se
dentro de mim


[naufraga perdida]
por ti

Autora: Rita Sá, 04/11/1999

[Revisto por Luiz de Aquino]

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PORTO DE ABRIGO



meu rio
deságua
em parte incerta

o teu colo
abraça
a minha nau

amarras soltas
tocam guitarras

e fragas
navegam
abraçadas
ao teu porto

[falésia incerta]
vida em mim

Autora: Rita Sá, 07/11/1999

[Revisto por Luiz de Aquino]

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FALHA TÉCNICA



O pano
Há muito que desceu.

Os actores
Abandonam o palco.

Apago as luzes,
E saio de cena
Em completa escuridão.

Autora: Rita Sá, Madrugada de 29/11/1999


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LAGO DOS CISNES



Hoje sonhei-te em mim
febre e frio
água e deserto
dor e milagre
grito de anunciação
calor do incêndio de um amor

cortante seda

dança enlouquecida

Autora: Rita Sá, 08/12/1999

[Revisto por Eliana Mora, 08/12/1999]
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FACA DE 100 GUMES



Tu
E
Eu

[fico]
Perdida
[sem ti]
E
Esquartejada
[sem mim]

Autora: Rita Sá, 18/12/1999

[Revisto por Luiz de Aquino]

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AREAL



desejo-te em mar
rodopio de sangue

minha porcelana
quebrada
em véu de marfim

carne em pedra
vento em chamas
fugindo louco
tão louco
de mim.

Autora: Rita Sá, 09/12/1999


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AS CORES DA SAUDADE



há em mim
uma imensa valsa branca
e dentro dela
pequenos tangos amarelos

aqui
a noite é eterna
não contém
[nela]
nem principio nem fim

aqui
dentro de mim
corre a veia
e tudo é vazio
[de ti]

Autora: Rita Sá, 09/12/1999


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BARQUEIRO



Neste mar de música
Sons e melodias
Embalo-me

Balançando
Suavemente
Ao sabor das ondas

Buscando
A eterna chegada
Dum barquinho
Que me navegue
Docemente

Além da outra margem

Autora: Rita Sá, 15/12/1999

[Revisto por José Félix]

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VEIA



Rio
Corrente
Queima
E escorre

Sangue
Palpitante
Crepita
E morre

Saudade
Ofuscante
Busca
O Norte

Amor
Desamor
Princípio
E fim
[loucura de mim]

Autora: Rita Sá, 16/12/1999


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CASTIGO



Prendes-me no freio
Rasgas-me a carne
Bates-me na alma

Com toda a força
Do teu desamor.

Eu quebro perdida
Triste
Enlouquecida

Por te amar
[sem mais]
Demais.

Autora: Rita Sá, 17/12/1999


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AQUARELA




Pôr do Sol
Pôr de mim

Fim de tarde
[Meu]
Em ti

Autora: Rita Sá, 17/12/1999


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VALSA LENTA




Movimento contínuo
Dança lenta

Balada enlouquecida
Batida leve

Mágoa brilhante
Dor sem sangue

Amor sem fim

Autora: Rita Sá, 17/12/1999


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RESTOS




Estilhaços de mim espalhados por aí
nessa estrada
cheia de ti

Espelho quebrado ao vento

Autora: Rita Sá, 17/12/1999


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A MORTE DO SORRISO




Que havia sido
O sorriso
[o meu]
Que te prendera

E agora
Que já não sei mais
Como re-sorrir

Perco-te
Num rosto fechado
[endoidecido]
Sobre o nada

Autora: Rita Sá, 17/12/1999


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